Nem tudo precisa ser automatizado

Existe uma nova promessa aparecendo em praticamente todos os lugares: automatize tudo.

Responda clientes com IA. Automatize seus e-mails. Gere conteúdo automaticamente. Organize seus processos. Automatize suas vendas. Faça a inteligência artificial cuidar do resto.

A tecnologia realmente abriu possibilidades que, alguns anos atrás, pareciam distantes. Empresas podem automatizar tarefas repetitivas, analisar grandes quantidades de informação e criar fluxos que antes exigiriam intervenção manual em várias etapas.

Mas existe uma pergunta que costuma ficar de fora:

Isso realmente precisa ser automatizado?

Porque conseguir automatizar alguma coisa e ter uma boa razão para automatizá-la são duas coisas diferentes.


Automação deveria resolver um problema

Automatizar uma tarefa significa, em termos simples, fazer com que determinado processo aconteça com pouca ou nenhuma intervenção humana depois de configurado.

Isso pode ser extremamente útil.

Imagine um formulário que recebe um novo contato e automaticamente registra as informações, envia uma confirmação e encaminha o pedido para a pessoa responsável. O trabalho continua acontecendo, mas várias etapas manuais deixam de ser necessárias.

Esse é um bom uso da automação porque existe um problema claro: muita tarefa repetitiva consumindo tempo.

A IBM, em seus materiais sobre automação de processos, destaca justamente a aplicação da automação para reduzir tarefas manuais e repetitivas, aumentar eficiência e permitir que pessoas se concentrem em atividades de maior valor.

A tecnologia, nesse caso, não é o objetivo.

Ela é o meio.


Automatizar uma tarefa ruim não a torna boa

Existe uma armadilha bastante comum quando uma empresa começa a automatizar seus processos: tentar automatizar algo antes de entender se o processo original funciona.

Imagine uma empresa que recebe pedidos de orçamento e demora três dias para responder.

Automatizar a primeira mensagem pode ajudar.

Mas, se depois disso o pedido continua parado em algum lugar, a automação apenas tornou mais rápida a primeira etapa de um processo que ainda é lento.

O mesmo vale para processos confusos.

Se ninguém sabe exatamente quem deve receber uma informação, automatizar seu encaminhamento não resolve necessariamente o problema. Pode apenas fazer a informação chegar mais rapidamente ao lugar errado.

Por isso, existe uma pergunta que deveria vir antes de qualquer ferramenta:

Como esse processo funciona hoje?

Depois:

Onde está o desperdício?

Só então:

O que pode ser automatizado?


Nem toda tarefa repetitiva deveria desaparecer

À primeira vista, qualquer tarefa repetitiva parece uma candidata perfeita para automação, mas nem sempre.

Algumas tarefas repetitivas existem porque ajudam a manter controle, qualidade ou relacionamento. Outras exigem pequenas decisões humanas que parecem simples, mas são importantes para o resultado.

Um atendimento, por exemplo, pode começar com perguntas automáticas para organizar informações. Mas isso não significa que toda conversa precise ser conduzida por uma máquina.

Em determinados momentos, a intervenção humana não é uma falha no processo.

Ela é parte do valor do processo.

A própria IBM destaca que automação e inteligência artificial podem trabalhar junto às pessoas, aumentando suas capacidades em vez de simplesmente substituir toda intervenção humana.

Essa distinção se torna ainda mais importante quando falamos de IA generativa.


IA não é sinônimo de automação

Os dois conceitos aparecem frequentemente juntos, mas não são a mesma coisa.

Automação está relacionada à execução de processos com pouca intervenção manual.

Inteligência artificial, por outro lado, pode ser utilizada para tarefas que envolvem reconhecimento de padrões, previsão, classificação, geração de conteúdo ou interpretação de informações.

Uma automação pode funcionar sem inteligência artificial.

E uma ferramenta de inteligência artificial pode ser utilizada sem automatizar completamente um processo.

Essa diferença importa porque evita um erro comum: colocar IA em qualquer processo apenas porque ela está disponível.

Às vezes, uma automação simples resolve melhor.

Às vezes, uma planilha bem estruturada resolve.

E às vezes, o problema nem precisa de tecnologia.


Comece pelo que consome tempo

Se uma empresa quer começar a automatizar, não precisa procurar imediatamente a tarefa mais sofisticada.

Pode começar pelas pequenas coisas que acontecem repetidamente.

Um contato que precisa ser registrado.

Um aviso que precisa ser enviado.

Um relatório que precisa ser organizado.

Uma informação que precisa ser transferida de um sistema para outro.

Uma tarefa que acontece dezenas de vezes por semana e exige sempre os mesmos passos.

Esses processos podem parecer pequenos individualmente, mas somados ao longo de meses, representam horas de trabalho.

É aí que a automação começa a fazer sentido: não porque parece futurista, mas porque devolve tempo.


E onde a IA realmente entra?

A inteligência artificial pode ampliar ainda mais esse potencial.

Em vez de simplesmente executar uma sequência fixa de instruções, sistemas de IA podem ajudar a interpretar informações, classificar solicitações, resumir documentos, gerar rascunhos ou apoiar decisões.

Mas isso também traz uma responsabilidade adicional.

Quanto mais autonomia uma ferramenta recebe, mais importante se torna entender o que ela pode fazer, o que não deveria fazer e quando uma pessoa precisa revisar o resultado.

O National Institute of Standards and Technology (NIST), órgão do governo dos Estados Unidos responsável por padrões e pesquisas tecnológicas, destaca em seu AI Risk Management Framework a importância de considerar riscos, confiabilidade e supervisão humana ao desenvolver e utilizar sistemas de inteligência artificial.

Isso vale especialmente para processos que envolvem clientes, informações sensíveis ou decisões importantes.


A melhor automação pode ser aquela que ninguém percebe

Quando uma automação é bem pensada, o cliente talvez nem saiba que ela existe.

Ele simplesmente recebe uma resposta mais rápida.

Uma solicitação chega à pessoa certa.

Um cadastro não precisa ser preenchido duas vezes.

Uma informação já está disponível quando alguém precisa dela.

O objetivo não é impressionar o usuário com a tecnologia por trás do processo. É tornar a experiência mais simples, rápida ou consistente.

Essa é uma diferença importante entre tecnologia usada como espetáculo e tecnologia usada como ferramenta.


Mais tecnologia também pode significar mais complexidade

Existe outro lado da automação que merece atenção.

Cada nova ferramenta pode trazer configurações, integrações, custos, manutenção e pontos adicionais de falha.

Uma empresa pode acabar com tantos sistemas conectados que ninguém sabe exatamente como tudo funciona.

Nesse cenário, a automação deixa de economizar tempo e começa a criar trabalho. Por isso, uma boa solução não é necessariamente a mais sofisticada.

Às vezes, a melhor escolha é uma automação simples que resolve 80% do problema e pode ser facilmente acompanhada pela equipe.

Complexidade não é sinônimo de inteligência.


Então, o que vale a pena automatizar?

Não existe uma lista universal.

Mas alguns sinais podem indicar uma boa oportunidade:

  • A tarefa acontece com muita frequência.
  • As etapas são relativamente previsíveis.
  • Existe pouco valor em realizá-la manualmente.
  • Erros humanos são comuns durante a execução.
  • O processo consome um tempo significativo da equipe.
  • A automação pode melhorar velocidade ou consistência.
  • É possível acompanhar o resultado e corrigir problemas quando necessário.

Por outro lado, tarefas que exigem empatia, julgamento, criatividade ou decisões delicadas podem precisar de uma participação humana muito maior.

A pergunta não deveria ser “podemos automatizar?”.

Quase sempre, a tecnologia encontrará uma maneira.

A pergunta melhor é:

“Devemos automatizar?”


O futuro não precisa ser totalmente automático

Talvez a maior mudança trazida pela IA não seja fazer tudo sem pessoas.

Talvez seja permitir que as pessoas parem de gastar energia com aquilo que não precisa da atenção delas.

Uma equipe que deixa de copiar informações entre sistemas pode dedicar mais tempo aos clientes.

Uma pessoa que não precisa organizar manualmente dezenas de relatórios pode se concentrar em analisá-los.

Um profissional que usa IA para criar um primeiro rascunho pode dedicar mais tempo para revisar, melhorar e tomar decisões.

A tecnologia não precisa ocupar o lugar das pessoas para ser útil.

Às vezes, seu melhor papel é devolver tempo para elas.


No fim, automatizar é uma escolha

A tecnologia está ficando mais acessível, e isso é uma ótima notícia.

Mas facilidade de acesso também significa que será cada vez mais fácil automatizar coisas que talvez nunca precisassem ser automatizadas. Por isso, antes de escolher uma ferramenta, vale entender o processo.

Antes de implementar IA, vale definir o problema.

Antes de substituir uma etapa humana, vale perguntar se aquela etapa realmente deveria desaparecer.

Uma empresa não precisa ter a maior quantidade de automações. Precisa ter as automações certas.

E, quando uma tecnologia consegue fazer isso, ela deixa de ser apenas novidade e passa a cumprir uma função muito mais interessante:

fazer o trabalho funcionar melhor.


Antes de automatizar alguma coisa

Se você está pensando em utilizar automação ou IA no seu negócio, comece por estas perguntas:

  • Qual problema estamos tentando resolver?
  • Quanto tempo esse processo consome hoje?
  • Ele acontece com frequência suficiente para justificar uma automação?
  • Existe alguma etapa que precisa continuar sob responsabilidade humana?
  • O que pode dar errado?
  • Como vamos saber se a automação realmente melhorou o processo?

Se você consegue responder essas perguntas, já está começando pelo lugar certo.


Na JohnAtlas, acreditamos que tecnologia não precisa ser usada porque é nova. Ela precisa ser usada porque pode tornar alguma coisa melhor.

Se sua empresa tem processos repetitivos, tarefas manuais ou oportunidades de usar IA de maneira mais inteligente, talvez exista uma automação esperando para ser construída.

Fontes e referências

  • IBM — Business Process Automation: fundamentos e aplicações da automação de processos.
  • IBM — Intelligent Automation: relação entre automação, inteligência artificial e trabalho humano.
  • NIST — Artificial Intelligence Risk Management Framework: referência sobre riscos, confiabilidade e gestão responsável de sistemas de IA.
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